E quantos anos sem colocar o lápis no papel para relatar algo que tenha me chamado atenção? Lembro-me de um tempo onde as coisas simples que me tocavam viravam um emaranhado de palavras que ali transmitiam um sentimento. Talvez minha percepção tenha se tornado falha por um tempo, talvez eu apenas tenha me esquecido de como é bom transmitir às pessoas os momentos que presencio, ou ainda eu apenas não veja mais relevância em tentar contá-los. Mas em um dia, melhor dizendo, numa semana como a que tenho passado, pequenos momentos trazem grandes emoções.
Quando coisas inesperadas acontecem é quando devemos observar o nosso redor. Um dia amanhece com céu claro e poucas nuvens, mas e se no fim do dia o tempo mudar repentinamente? Seria algo ruim ser apanhada desprevenida? Talvez sim, talvez não. E é onde começo esse relato.
O vento começa a soprar bruscamente de forma inesperada; ali, naquele ônibus com o rapaz gentil, que um tempo antes havia me consolado de uma decepção, ocorre a dúvida de como agir em meio àquela situação, e antes mesmo de encontrar solução a chuva cai e o problema torna-se mais urgente.
Sem guarda-chuva, e em um ponto onde não param nenhum de nossos ônibus, o que resta é esperar a chuva passar. Mas e se eu conseguisse acreditar que algum motorista pudesse se “apiedar” de nós e parar ali, mesmo que não fosse seu ponto? Mais uma vez a dúvida. Logo penso em como fora minha semana, com três grandes decepções, e percebo que não tenho de onde tirar esperanças para acreditar que possa haver gentileza naquele momento.
Avistei depois de algum tempo o primeiro ônibus que eu poderia entrar, que parou a alguns metros de distância de mim, não sabia se tomava coragem de ir e humildemente pedir para que o motorista me deixasse embarcar ali mesmo; fui, mas como o esperado me foi negado. As pessoas que ali se encontravam, que inclusive me incentivaram a ir até lá pedir, demonstraram o descontentamento pelo que acabara de acontecer, talvez seja preciso estar na mesma situação para que compreenda o que o próximo precisa. Algo escorreu no meu rosto, não sei afirmar se eram gotas da chuva.
Em meio a conversas, em minha cabeça as situações pelas quais tenho passado e minhas desesperanças continuavam a me convencer de que o mais certo seria esperar até que a chuva passasse para caminhar até meu ponto. Foi nesse momento que avistei outro ônibus, pensei mais uma vez no que acabara de acontecer e não acreditei que pudesse acontecer algo diferente nessa segunda tentativa, e para meu espanto não me foi negado dessa vez e ali estava eu, dentro de um ônibus com todos os bancos molhados, pelo menos já estava a caminho de casa.
Eis que tenho uma segunda surpresa; procurando por um banco que estivesse menos molhado um senhor, que aparentava ter em torno de seus 50 anos, me diz “esse banco está quase seco, pode se sentar aqui”, talvez o correto a se pensar é que existem segundas intenções em tal gentileza. Ali me sentei e vez ou outra conversávamos sobre como o tempo nos surpreendeu hoje e como o trânsito até nosso destino estaria um caos. Uma noite mal dormida me deixou cansada e o sono tomava conta de mim de uma forma que não era possível controlar os cochilos, e outra surpresa, novamente o senhor me oferece um pouco de gentileza, dizendo-me até “não tem problema se cair sobre meu ombro”, mas estranhamente notava algo de familiar naquele olhar, talvez tivesse encontrado ali algo paterno.
E já no ultimo trecho do meu percurso para casa, pensando nas coisas que eu vivi hoje, recebi meu teste, é como prefiro pensar; será que com tudo que passamos conseguimos absorver a gentileza e refleti-la? Ou será que “gentileza gera gentileza” é apenas mais uma frase de efeito bonita que as pessoas usam para disfarçar a hipocrisia humana?
Ao portão minha mãe me esperava, guardando minha chegada de qualquer malfeitor que possa me abordar, e barulhos agudos quebraram o silêncio daquela rua chuvosa e mal iluminada. Três pequenos anjos, três criaturinhas encolhidas e molhadas, tremendo, espremiam-se tentando inutilmente afastar o frio que os abraçava. Três pequenos gatinhos indefesos. E novamente pensei em como algum ser humano poderia fazer algo dessa natureza com seres indefesos. Fiz o que eu deveria fazer, os levei para dentro e dei a eles toda a gentileza que recebi; e teria dado mesmo não tendo recebido.
No fim decidi que não devo pensar no porquê as pessoas praticam atos tão ruins e até cruéis, devo fazer minha parte e contagiar as pessoas com a gentileza. Posso agora encostar minha cabeça no travesseiro e dormir sabendo que fiz minha parte.
Thaya

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